Ele era um
garoto comum, era mais um a vagar em meio à multidão. Tinha sonhos, tinha
amigos, tinha pai e mãe, e tinha a sensação de que seu lugar não era ali. E não
era a cidade, não eram as pessoas, não era o curso da faculdade que estavam
errados. Era ele que sentia falta de um sentido maior pra sua existência.
Sentia que os dias passavam rápido demais, sentia que seu papel era no palco,
mas não conseguia sair da plateia da própria vida.
E eis que
indo pro estágio, no ponto de ônibus, surgiu um caderno, que parecia estar ali
a sua espera, com as folhas a dançar ao ritmo do vento. Vou devolvê-lo ao dono,
ele pensou, e ao folheá-lo em busca dos dados do proprietário, ficou
impressionado com o que viu.
As páginas
eram recheadas de fotos e reportagens de jornal, seguidas de uma data e de uma
descrição breve. Eram visitas a orfanatos e hospitais, plantio de árvores e
limpeza de rios, doação de sangue e de roupas, conscientizações sobre DST’s e
sobre separação do lixo, capacitações sobre cidadania e liderança. As pessoas
das fotos sorriam com roupas iguais, ilustradas por um leãozinho meio banguela.
Ele ficou
encantado. Nunca havia visto nenhuma das pessoas, mas conhecia vários lugares
das fotos. Eram da sua cidade, era um mundo de coisas que de certa forma o
rodeavam, mas ele não conhecia.
Encontrou no
final do caderno um nome e um telefone. Ligou e ninguém atendeu. Ao chegar em
casa no fim do dia ligou novamente, e uma voz doce do outro lado da linha
agradeceu muito por saber que seu caderno (que ela chamou de relatório) estava
inteiro e seria devolvido. Marcaram para o sábado, na pracinha de um bairro da
periferia.
Ao chegar lá
ele reconheceu as pessoas das fotos, em meio a muitas crianças. Algumas
seguravam balões, outras faziam pintura de rosto, outras cuidavam de brinquedos
infláveis, e uma garota quase do tamanho das crianças distribuía algodão doce
com o sorriso mais iluminado que ele já vira em alguém.
Ele foi
andando entre as pessoas e quando se deu conta já estava na frente dela. A
menina então o viu e veio em sua direção, olhos fixos no caderno que ele
abraçava no peito. Presumindo que fosse dela, ele o estendeu. Notou na camiseta
dela o mesmo nome de três letras e o mesmo leão banguela das fotos do caderno e
sorriu.
Nos momentos
seguintes ela o agradeceu, explicou o que faziam ali e perguntou se ele queria
ficar para ajudar na entrega dos cachorros-quentes que estavam sendo trazidos
pras crianças. E ele ficou. Por curiosidade, por não ter nada mais pra fazer em
casa, pra olhar o sorriso da menina por mais tempo, e por que sentiu-se em paz em meio à bagunça daquelas crianças, como não
sentia-se há muito tempo.
O dia passou
rápido, ele almoçou ali e permaneceu até o sol se pôr. E quando todos começaram
a recolher os brinquedos, ele sentiu-se triste. Não tinha vontade de voltar pra
casa e pra rotina de estar na plateia de todo dia. Ali parecia ser o palco e
ele queria continuar sendo protagonista. Fazendo aquelas crianças sujas e
ranhentas sorrirem, ele descobriu-se empoderado, capaz de ser mais do que era.
Sentiu-se parte de algo maior, intenso e bonito.
Pensava
nisso enquanto afastava-se do grupo, até que alguém o chamou. Era a garota do
caderno. Perguntou se ele estaria livre no domingo. Ele estava. Ele estaria
livre em todos os sábados e domingos que viriam, se não fosse o convite dela
pra próxima reunião, pra próxima campanha, e pra tudo o que veio depois disso.
Naquele dia
ela ganhou de volta um caderno e ele ganhou um pin, um grupo novo de amigos, um
sentido pra sua existência, e o sorriso dela como bônus.
01/12/2015
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