quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

O Caderno



            Ele era um garoto comum, era mais um a vagar em meio à multidão. Tinha sonhos, tinha amigos, tinha pai e mãe, e tinha a sensação de que seu lugar não era ali. E não era a cidade, não eram as pessoas, não era o curso da faculdade que estavam errados. Era ele que sentia falta de um sentido maior pra sua existência. Sentia que os dias passavam rápido demais, sentia que seu papel era no palco, mas não conseguia sair da plateia da própria vida.
            E eis que indo pro estágio, no ponto de ônibus, surgiu um caderno, que parecia estar ali a sua espera, com as folhas a dançar ao ritmo do vento. Vou devolvê-lo ao dono, ele pensou, e ao folheá-lo em busca dos dados do proprietário, ficou impressionado com o que viu.
            As páginas eram recheadas de fotos e reportagens de jornal, seguidas de uma data e de uma descrição breve. Eram visitas a orfanatos e hospitais, plantio de árvores e limpeza de rios, doação de sangue e de roupas, conscientizações sobre DST’s e sobre separação do lixo, capacitações sobre cidadania e liderança. As pessoas das fotos sorriam com roupas iguais, ilustradas por um leãozinho meio banguela.
            Ele ficou encantado. Nunca havia visto nenhuma das pessoas, mas conhecia vários lugares das fotos. Eram da sua cidade, era um mundo de coisas que de certa forma o rodeavam, mas ele não conhecia.
            Encontrou no final do caderno um nome e um telefone. Ligou e ninguém atendeu. Ao chegar em casa no fim do dia ligou novamente, e uma voz doce do outro lado da linha agradeceu muito por saber que seu caderno (que ela chamou de relatório) estava inteiro e seria devolvido. Marcaram para o sábado, na pracinha de um bairro da periferia.
            Ao chegar lá ele reconheceu as pessoas das fotos, em meio a muitas crianças. Algumas seguravam balões, outras faziam pintura de rosto, outras cuidavam de brinquedos infláveis, e uma garota quase do tamanho das crianças distribuía algodão doce com o sorriso mais iluminado que ele já vira em alguém.
            Ele foi andando entre as pessoas e quando se deu conta já estava na frente dela. A menina então o viu e veio em sua direção, olhos fixos no caderno que ele abraçava no peito. Presumindo que fosse dela, ele o estendeu. Notou na camiseta dela o mesmo nome de três letras e o mesmo leão banguela das fotos do caderno e sorriu.
            Nos momentos seguintes ela o agradeceu, explicou o que faziam ali e perguntou se ele queria ficar para ajudar na entrega dos cachorros-quentes que estavam sendo trazidos pras crianças. E ele ficou. Por curiosidade, por não ter nada mais pra fazer em casa, pra olhar o sorriso da menina por mais tempo, e por que sentiu-se em paz em meio à bagunça daquelas crianças, como não sentia-se há muito tempo.
            O dia passou rápido, ele almoçou ali e permaneceu até o sol se pôr. E quando todos começaram a recolher os brinquedos, ele sentiu-se triste. Não tinha vontade de voltar pra casa e pra rotina de estar na plateia de todo dia. Ali parecia ser o palco e ele queria continuar sendo protagonista. Fazendo aquelas crianças sujas e ranhentas sorrirem, ele descobriu-se empoderado, capaz de ser mais do que era. Sentiu-se parte de algo maior, intenso e bonito.
            Pensava nisso enquanto afastava-se do grupo, até que alguém o chamou. Era a garota do caderno. Perguntou se ele estaria livre no domingo. Ele estava. Ele estaria livre em todos os sábados e domingos que viriam, se não fosse o convite dela pra próxima reunião, pra próxima campanha, e pra tudo o que veio depois disso.
            Naquele dia ela ganhou de volta um caderno e ele ganhou um pin, um grupo novo de amigos, um sentido pra sua existência, e o sorriso dela como bônus.

01/12/2015

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

poema aleatório 03



Te disse que não sabia lidar, desde o início. Te falei que não sou boa em receber elogios, mas te fiz tantos... E todos verdadeiros.
Te contei meus dramas, minhas inseguranças e meus ídolos. Me encantei com tuas bandas, teu jeito de sentir e demonstrar, e tuas posições diante do mundo.
E fim. Acabou.
Dizem que se deve agradecer ao céu por se ter uma paixão, mesmo que não concretizada, porque ainda é melhor que não ter.
Ok, eu agradeço, mas não me dou por satisfeita. Queria mais. Mas o que eu quero excede o limite do que eu posso.
Queria chegar pertinho, afastar teu cabelo dos olhos (já que não posso cortá-lo), olhar no fundo deles e te dar um beijo. Meu coração aceleraria, e eu sentiria o teu batendo no mesmo ritmo. Aí viria o abraço, infinito, como todos os abraços deveriam ser. Pegaria na tua mão e andaríamos de mãos dadas, sob a luz da lua. Depois, voltaríamos pros nossos mundos. Com o sorriso de orelha a orelha.
Iriam bastar, só algumas horas, só alguns instantes? Não. E, ainda que contrariada, te agradeço por me lembrar. A cena ainda vai existir. Mas somente dentro de nós. Escrevo na tentativa de exorcizá-la, de tirar de mim e eterniza-la no papel.
Escrevo hoje, depois de tempos, porque só o faço quando algo mexe comigo. E você mexeu.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

poema aleatório 02



Tocava Keane ao fundo
Num looping infinito
Que ela não cansava de ouvir

Tocavam os dedos no teclado
Impacientes e aflitos
Sem saber o que sentir

Tocava em seu íntimo
Descobri-lo, tão longe
E não poder trazê-lo pra si.

domingo, 19 de fevereiro de 2017

poema aleatório 01



Naquele dia doeu,
As escolhas que ela fez há tempos, doeram.
E ela entendeu
Que a vida nos testa
Que saber esperar é uma arte
E que metade da laranja existe
Mas nem sempre encontrá-la basta
Existe hora, tempo e lugar certo.
E acertar, é ganhar na Mega-Sena.

Só que, infelizmente, ela nunca gostou de jogar.

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

O sonho da noite passada.

Noite passada sonhei com o Neko. O cara da Tópaz. Mas não tinha a ver com a Tópaz.
Era um sonho adolescente, quase infantil (ainda posso ter sonhos infantis aos 27 anos?).
O Neko era nutricionista no sonho. Eu encontrava ele num consultório, e depois numa praça tomando sorvete. Ele olhava no olho, perguntava do meu dia, conversava com a minha mãe, e me deixava com as bochechas coradas, só por demonstrar que se importava e pela doçura que tinha na voz. Minha amiga (sempre elas) dizia pra ele que eu parecia apaixonada, e ele me convidava pra jantar.
Aparecia num cavalo, digo, carro branco e abria a porta pra eu entrar. Falava das coisas do universo e oferecia um casaco pra me proteger do frio. Se debruçava sobre o muro depois e ficava bem pertinho puxando mais papo. O muro nos separava. O olho no olho nos unia. E então eu acordei porque o despertador me lembrou que era hora de trabalhar. Saí da cama cantarolando algo do tipo "o amor exiiiiiiste, o amor exiiiiiste meeeeu amooooor".
E o sonho se explicou.
Não era o Neko ali nos meus pensamentos me fazendo sonhar com isso. Era o príncipe encantado, educado, fofo que idealizei na terceira série. Eram todas as minhas projeções de relacionamento conto de fadas que nunca se concretizaram. Era a utopia do amor perfeito, da paixão a primeira vista e das borboletas no estômago.
E porque o Neko então? Certamente porque as músicas dele derretem meu coração aquariano gelado, e insistem em dizer em cada verso e em cada melodia, até que eu me convença: "ei menina, o amor existe".



Trecho de "A Camponesa", pra ficar claro o nível de lindeza dessas músicas:

"Quando for pra morrer, que seja de amor por alguém
Quando for pra chorar, que seja de tanto gargalhar
Quando for pra dizer adeus, que seja pra seguir o coração
Quando for pra entrar no mar, que seja pra mergulhar"